Tumores Cerebrais

Microadenoma de Hipófise É Grave? Precisa Operar?

25 de agosto de 20268 min de leituraPor Dr. Erion Junior de Andrade

Um exame de ressonância pedido por outro motivo às vezes mostra uma pequena alteração na hipófise, menor que 1 centímetro, e o laudo chama de microadenoma. A primeira reação de quem lê essa palavra é de susto, mas a maior parte desses achados nunca vai precisar de cirurgia. O Dr. Erion de Andrade explica quais exames hormonais definem a conduta, quando o acompanhamento é suficiente e em quais situações a cirurgia realmente entra na conversa.

Um exame de ressonância pedido por outro motivo — enxaqueca, um exame de rotina, investigação depois de uma queda leve — às vezes mostra uma pequena alteração na hipófise, menor que 1 centímetro. O laudo chama de microadenoma, e a primeira reação de quem lê essa palavra pela primeira vez costuma ser de susto. No consultório, essa é uma das situações mais comuns e, ao mesmo tempo, uma das que gera mais receio desproporcional ao risco real. A maior parte desses achados nunca vai precisar de cirurgia, mas isso não significa que possam ser ignorados: mesmo pequenos, exigem uma investigação bem feita para saber se estão produzindo algum hormônio em excesso, porque é esse ponto, e não o tamanho da lesão, que costuma definir o que vem a seguir.

O que é um incidentaloma de hipófise

Chama-se incidentaloma qualquer lesão descoberta por acaso, em um exame de imagem pedido para investigar outra coisa. Na hipófise isso é frequente: estudos de necropsia e de ressonância em pessoas sem qualquer sintoma encontram pequenos adenomas em uma parcela relevante da população, a maioria deles nunca diagnosticada em vida porque nunca causou problema algum. Um microadenoma é, por definição, menor que 10 milímetros. Isso não define se a lesão é perigosa, só define o tamanho. O que importa de fato é se ela libera algum hormônio de forma descontrolada, e é por isso que o primeiro passo depois do achado é sempre hormonal, não cirúrgico. Um adenoma maior, acima de 10 milímetros, já é chamado de macroadenoma e segue uma lógica de investigação um pouco diferente.

Funcionante ou não funcionante: a pergunta que muda tudo

Todo microadenoma recém-descoberto precisa responder a uma pergunta antes de qualquer decisão sobre acompanhar ou tratar: ele produz algum hormônio em excesso, chamado de funcionante, ou é uma lesão silenciosa do ponto de vista hormonal, chamada de não funcionante? A resposta muda a conduta inteira, e por isso pedimos um painel hormonal já na primeira consulta, mesmo quando o paciente não relata nenhum sintoma sugestivo de alteração hormonal.

  • Prolactina: elevada demais aponta para um prolactinoma, geralmente tratado com remédio, não com cirurgia.
  • IGF-1: rastreia excesso de hormônio do crescimento, associado à acromegalia.
  • Cortisol, com teste de supressão com dexametasona ou cortisol livre urinário de 24 horas: investiga a doença de Cushing.
  • TSH e T4 livre: avaliam se a hipófise está interferindo no funcionamento da tireoide.

Um resultado alterado não fecha diagnóstico sozinho. Conforme o hormônio suspeito, pedimos exames complementares e, às vezes, repetimos a dosagem em outro dia, porque fatores como estresse, uso de certos remédios e até o horário da coleta podem alterar o resultado. Ainda assim, esse painel inicial já separa, na maior parte dos casos, quem precisa de tratamento medicamentoso, quem só precisa de acompanhamento e quem deve discutir cirurgia.

A maior parte dos microadenomas descobertos por acaso é não funcionante e nunca vai precisar de cirurgia. O papel do acompanhamento, nesses casos, é confirmar que a lesão permanece estável, não impedir algo que provavelmente não vai acontecer.

Quando o acompanhamento é suficiente

Para um microadenoma não funcionante, sem qualquer alteração visual e sem crescimento em exames sucessivos, a conduta costuma ser observação com ressonância periódica. Na literatura, o crescimento desse tipo de lesão ao longo do tempo é pouco frequente, e quando acontece costuma ser lento, o que dá tempo de agir antes que cause qualquer problema. Um esquema comum é repetir a ressonância entre 6 e 12 meses depois do achado inicial e, se a lesão estiver estável, espaçar os exames seguintes, ajustando o intervalo caso a caso junto com endocrinologia. Os exames hormonais também costumam ser repetidos nesse acompanhamento, ainda que em intervalo mais longo, porque uma lesão silenciosa hoje pode, raramente, passar a produzir hormônio depois de alguns anos.

Quando a cirurgia entra na conversa

A cirurgia deixa de ser hipótese distante e passa a ser discutida em três situações. A primeira é excesso hormonal que não é controlado com remédio, ou que causa efeitos colaterais que o paciente não tolera bem, algo mais comum em certos prolactinomas resistentes e na doença de Cushing, em que o remédio isolado raramente resolve o quadro. A segunda é crescimento comprovado em exames sucessivos, mesmo em lesão não funcionante, especialmente quando esse crescimento se aproxima de estruturas vizinhas importantes. A terceira, mais rara em uma lesão menor que 10 milímetros, é qualquer sinal de que a lesão está encostando no quiasma óptico ou nos nervos que passam perto da hipófise, comprometendo a visão. Fora dessas três situações, a indicação cirúrgica costuma trazer mais risco do que benefício.

Cisto na hipófise não é a mesma coisa que adenoma

Vale um parênteses, porque a confusão é comum no consultório: parte dos achados incidentais na região da hipófise não é adenoma, e sim um cisto de Rathke, uma bolsa de líquido remanescente do desenvolvimento embrionário da glândula, sem potencial de virar tumor. A investigação inicial e os critérios de acompanhamento são parecidos, mas o cisto de Rathke costuma ser ainda mais tranquilo: quando pequeno e sem sintomas, quase sempre é só observado, e a maior parte nunca chega a precisar de qualquer intervenção.

Dor de cabeça muito forte e de início súbito, junto com perda de visão ou dificuldade para mexer os olhos, pode ser sinal de sangramento dentro do tumor, chamado apoplexia hipofisária, e exige avaliação em pronto-socorro imediatamente, não consulta agendada.

No consultório, em Porto Alegre, a conduta segue essa mesma lógica: primeiro entender se o microadenoma produz hormônio, depois decidir entre acompanhar ou tratar, e só considerar cirurgia quando ela realmente muda o desfecho. Os casos que pedem operação costumam ser discutidos com endocrinologia antes de qualquer indicação, muitas vezes com acompanhamento no Hospital São José, da Santa Casa de Porto Alegre. Se você recebeu o laudo de um microadenoma e quer entender o que ele significa no seu caso, ou já tem os exames hormonais prontos e quer uma segunda opinião sobre a conduta, agende sua consulta com o Dr. Erion.

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